Pieces

“So much has been said about the girls over the years. But we have never found an answer. It didn’t matter in the end how old they had been, or that they were girls… but only that we had loved them… and that they hadn’t heard us calling… still do not hear us calling them from out of those rooms… where they went to be alone for all time… and where we will never find the pieces to put them back together”.

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Stop calling him.

“E sei que, em algum ponto do futuro, haverá outra pessoa. Será inteligente e bela e sofrida de algum modo, e entender-nos-emos, e apaixonar-nos-emos, e sentir-nos-emos culpados por estarmos felizes, pelo que faremos pequenas coisas para sabotarmos a nossa relação quando as coisas começarem a ser boas demais. E ela será paciente comigo, e então, quando suportar todo o abuso que conseguir, haverá lugar a discussões violentas e depois, presumivelmente, um ultimato banhado em lágrimas e, então, teremos avançado uma etapa.

Continuo a sentir culpa, mas isso passa por etapas, e a cada etapa, a Hailey esfumar-se-á cada vez mais no passado distante, até não ser mais do que uma nota de rodapé na história da minha vida.

E um dia, uma versão de mim mais velha irá contar aos seus filhos como já fora casado, antes de ter conhecido a sua mãe, e a Hailey não será para eles uma pessoa, mas antes um pequeno suspiro biológico intangível, um acontecimento triste na vida do seu pai no percurso até ser feliz para sempre. E o pior de tudo é que, provavalmente, para mim será o mesmo.

E não preciso que me digam que isso irá acontecer, é inevitáel. Não estou a enganar-me. Mas só porque uma coisa é verdade, não quer dizer que esteja preparado para a encarar já. Por vezes, a única verdade que as pessoas conseguem aceitar, é aquela com a qual acordam de manhã. E esta manhã, como todas as manhãs, acordei com a minha dor. Por isso façam-me um favor e não me fodam a cabeça”.

Jonathan Tropper, Como falar com um viúvo

Volta, coração

C.

O nosso amor era real, não era? Era bom e era doce como aconchegos de boa noite. Lembras-te? Claro que não te lembras. A única coisa que querias nessa altura era que te deixassem em paz, a ti e à tua mochila cinzenta abandonada nos bancos de pedra. Querias era livrar-te daqueles óculos redondinhos que sabe lá quem te impingiu, mas que teimavam em escorregar-te pelo nariz abaixo. Querias era deixar de ser o pombo correio dos bilhetinhos para o rapaz mais giro da escola, que calhou estar na tua turma e que te enchia a paciência com os postais de S. Valentim entregues na aula de Inglês, muitos para ele e poucos ou nenhuns para ti.

Querias era conversar, correr pouco e jogar voleibol com a corda feita rede ao lado do pavilhão. Querias era crescer e sair dali para fora porque, para ti, todos eram miúdos tolos e os mais velhos é que te faziam rir.
Mas eu lembro-me. Do primeiro, segundo e todos os outros contactos que são tão importantes por passarem a barreira do terceiro. Lembro-me quando deixei de achar o outro o rapaz mais interessante da escola, para passar a reparar em ti e a achar que merecias um postal do dia dos namorados, escrito na linguagem do amor que se quer criança e pintado a marcadores Molin roxos e cor-de-rosa. E tinha um ursinho. E um balão. E um coração. Na altura em que a professora de inglês me ensinava a dizer “I love you”.

Lembro-me de chamar a tua atenção. De achar que eras parvo por não quereres brincar às caçadinhas, mais parvo ainda por não perceberes que eu só tentava caçar-te a ti e ignorava as reprimendas das raparigas da minha equipa: tu corrias muito, era uma perda de tempo, porque é que eu não corria atrás dos outros e tentava ganhar pontos? Porque tu eras os meus pontos.

E lembro-me do dia em que os ganhei, na rampa de relva perto da sala de música número dois, em que o teu sim me soou nos ouvidos como uma explosão. E agora? O que fazem os namorados aos doze anos? Nada. Não conversam, não dão as mãos, não se colam pelos ombros e não deixam de ter vergonha. Pelo menos, nós não.

Eu dava-te cassetes gravadas e escrevia-te cartas. Tu fazias das tripas coração para não me gozar e para dizer um, tão mentiroso quanto tímido, “adorei.” E eu adorava-te a ti. Adorava chegar à escola e saber onde estava o MEU namorado, só para passar lá ao lado e dizer a quem estava comigo que era “aquele” e que já estava. Estava consumado. Estava desvirginado o meu coração.

E lembro-me da primeira vez (e única!) em que demos as mãos durante toda uma distância entre pavilhões, para os outros mínima mas para mim enorme e decorada por tremores nos joelhos. E lembro-me de quando todos, os mais velhos, os que te faziam rir, foram embora e o teu compasso de espera mal disfarçado se traduziu no meu primeiro beijo de sempre, no nosso primeiro e único beijo ao longo das semanas em que foste o MEU namorado. Beijo que é primeiro é sempre mal dado. Mas é sempre o melhor.

Por isso, lembra-te outra vez para eu me lembrar outra vez com mais pormenores. De como voltei a apaixonar-me por ti anos depois e tu ignoraste e o meu coração iludido sobre os amores eternos se deixou de tretas e seguiu em frente.

Por isso, volta. Tenho saudades tuas e do amor doce e inocente de que eu me lembro, com toda a certeza, mais do que tu. Mas eu conto-te. Eu explico-te. Eu escrevo-te uma história de embalar. Lembras-te como era fácil? Era. E preciso que seja outra vez. Preciso de mandar à fava o amor descontrolado e enorme que me invadiu na vida depois de ti, voltar à rampa da escola só para te ver passar e apaixonar-me outra vez agora não sem querer.

Vem, amor de criança tímido e descomprometido. Embala-me outra vez. Porque se não vieres, porque se vier, em vez de ti, outro arrebatador, desconfio que me desintegro em pedaços tão pequenos que nem se vão poder enterrar.

Gostava de me apaixonar por ti outra vez. Com os corações. Os balões. Os ursinhos mal pintados e as letras garrafais do “I love you”.

Inverno é…

É branco dos pés à cabeça, mas aqui não. É as gotas de chuva que queríamos como neve mas que já chegam às calçadas derretidas como fracas memórias. É dar mãos geladas para arrefecer medos e saudades, é passear com o pouco sol à espreita, pelas cidades que nunca se vêem desertas, pelas ruas que adormecem mais à noite do que nós.

Mas Inverno é natal. É cheiro a bolos doces de canela, é o som das mesmas pautas de todos os anos, é o abandonar das rotinas das outras três estações para abraçar estas com os mesmos mil braços de sempre. É a vontade que seja mais uma vez único e feliz, é a certeza de estarmos à volta de mesas redondas e quadradas, de limpar os lábios doces com os guardanapos vermelhos e de ter vontade simplesmente de encostar a cabeça para trás e ver as luzes acender e apagar.

Inverno é natal. E “que o Natal seja mais um momento em que as pessoas acreditem que vale a pena viver um Novo Ano.”

Par de Ases

New York, 19 de Junho de 2010

Foi inacreditável como, numa questão de segundos, o plural do Lawrence já era o meu. No início tremi como varas verdes só por me ver associada a outra alma sem o ter querido ou pedido, mas pouco tempo passado em divagações sobre janelas sujas e bancos soltos, o metro começou a viagem de volta ao meu ponto de partida, que conscientemente tinha abandonado naquela manhã sem trabalho. Foi como rebobinar uma cassete em modo silêncio, o thriller a que estávamos presos, lado a lado, voltou atrás àquelas partes que ainda não assustam. Cravei as unhas nos apoios para quem viaja de pé e, mal a carruagem deu o solavanco final, o Lawrence conduziu-me, como que por instinto, à minha própria casa. Parecia ter um mapa nítido em frente dos olhos.

– É a tua vez de perguntar onde é que vamos – disse.

– Mas eu sei. Só não sei como é que sabes.

– Até parece que li teu diário, não é estrela? – sorria.

Aquela confiança toda trouxe ao meu peito uma sensação quente de paternidade, de asa de mãe. E, numa fracção de segundo, tudo se tornou automático e demasiado previsível. O apartamento apodrecido já não era meu, era dele. O meu caminho quotidiano era percorrido pelos seus passos e não pelos meus, arrastados e demorados de propósito. Dei-me ao luxo de ficar especada em frente à porta certa já a acreditar que ele, de certeza, tinha a chave.

– Sabes no que te vais meter? – perguntou.

– No costume. – pensava eu. Por um lado era bom. Já estava a imaginar o dia seguinte e a confusão entre alívio e saudade de não o voltar a ver porque eu mesma o tinha decidido. No final de contas, as manhãs eram sempre decididas por mim, mesmo quando tinha de inventar desculpas esfarrapadas.

– Queres jogar? – o olhar dele perfurava-me a pele. Era doce e quente, hipnotizava como ondas e embalava como ponteiros.

– Sempre. Queres perder?

– Hoje ganho no fim. – respondeu-me.

Cedi e tirei a chave do bolso de trás das calças, convencendo-me que não havia maneira de sair derrotada daquela charada. Afinal tinha acabado de passar a minha fronteira, estava no meu habitat natural e dominava todos os cantos daquele apartamento. Acolhia apenas os poucos que queria e corria-os a todos quando bem me apetecia. Não oferecia nada que não fosse carnal e era isso que me dava o meu ilusório ar de mulher altiva e confiante.

O Lawrence instalou-se no chão como se não houvesse nenhum sítio no mundo em que ele preferisse estar, nem naquele momento nem noutro dos seus vinte e muitos anos. Cruzou as pernas e tirou do bolso do casaco um baralho de cartas ainda embrulhado em plástico barato.

– Queres que te guarde o casaco? – perguntei, numa tentativa hospitaleira.

– Não. Senta-te à minha frente.

Numa situação normal, numa tarde normal, num engate normal, aquela autoridade arrogante já me tinha feito convidá-lo a sair ao pontapé mas obedeci automaticamente como um cão guia. Sentei-me e esperei sem saber o que esperar.

– Strip poker. Perdes uma mão e livras-te de uma peça. A ordem és tu que decides mas deixa a mais reveladora para o fim. – explicou.

– O único poker que conheço é o que dá na televisão às tantas da madrugada. Não sei se sei jogar.

– Não te vou ensinar a jogar o que mais escondes. Podes desistir e passamos já ao que mais te interessa. – tentava ofender-me mas não se estava a sair muito bem.

– Desistir é para os fracos. Talvez eu seja um deles, mas hoje não.

Baralhou as cartas com perícia e mãos de ilusionista. Brincou com elas no ar e no chão e depois mandou-me partir o baralho ao meio. Devolvi-lho quando acabei a tarefa e perguntei-me, ao tocar nas cartas novas em folha, se ele compraria um baralho novo para cada presa. Aos poucos comecei a sentir-me menos caçadora e aquilo começava a incomodar-me.

Ele deu-me uma carta, depois uma para ele, depois para mim, depois para ele novamente. Saiu-me na rifa um Rei e uma Dama e, pelo que conhecia deste jogo milionário, pareceu-me bem. Mas o sorriso que ele abriu quando viu as dele deixou-me assustada. Tudo o que não queria naquela tarde era revelar o que quer que fosse, com os olhos dele postos em mim pronto a cravar-me os dentes.

No flop saiu um 2, um 6 e um 7. Pensei que era nesta altura que se apostava ou fichas, ou dinheiro, ou feijões, mas ele explicou-me que era “no escuro” e que só tinha de dizer se jogava ou desistia. A adrenalina subiu-me à cabeça e instalou-se de maneira pegajosa. Mesmo não sabendo o que me esperava quando começasse a despir-me, a palavra desistir assustava-me e não queria acordá-la de novo.

– Jogo. – respondi

Ele também foi a jogo e, tomadas as decisões, virou mais uma carta: um 2, o que fazia já um par na mesa. O suspense dele irritava-me e demorou uma eternidade a virar o meu Rei, a quinta e última carta. Sorri vitoriosa para os meus dois pares.

– Queres ver ou queres mostrar-te? – perguntei.

– Tens um Rei. Eu não tenho nada. Vou tirar o casaco e o cachecol, encara isto como um bónus por teres ganho logo à primeira jogada.

– Não quero penas. Põe o cachecol e baralha.

Ele obedeceu e reiniciou o jogo mas agora quem dava as cartas era eu. As coisas começavam a tomar a minha forma e ele baixou os olhos, derrotado. A tarde começou, nesse momento, a arrastar-se pela noite dentro e dei por mim a sorrir por ter optado não ir trabalhar nessa manhã.

Continuámos a jogar. Poderia chamar-lhe inexperiência ou sorte de principiante mas ganhei as quatro mãos seguintes e o Lawrence perdeu, numa mal disfarçada insatisfação, os sapatos e as meias. Em certos momentos dei por mim a pensar que ele estava a fazer de propósito e que era uma espécie de tu cá, tu lá: ele tinha lido o meu diário, eu podia vê-lo nu sem fazer esforço nenhum. Mas a inocência dele parecia-me genuína e talvez ele não soubesse mesmo o que estava a fazer.

As únicas palavras que trocámos durante todo o jogo eram relacionadas com poker. Quem nos observasse de fora podia perfeitamente pensar que era uma relação de surdos-mudos, porque até as decisões jogar – desistir, eram expressadas por gestos. O silêncio era agradável e senti-me plena por não ter de falar. Desde que o vi entrar na livraria que achei que o Lawrence seria do tipo falador, que esventra a alma à procura de histórias de vida e busca as lágrimas escondidas até à exaustão. Não tentou.

Ganhei com um trio de Damas, ganhei com cinco cartas da mesma cor (nem sabia que isso era possível), ganhei com um par de Cincos. Camisola, cachecol, camisa aos quadrados. No meu chão alcatifado e poeirento as peças de roupa do meu adversário acumulavam-se numa pilha e sentia o Lawrence, ansioso, a despir-me mentalmente e a desejar ver alguma coisa que lhe desse vontade de continuar o que tinha começado quando me viu, ao longe, no metro.

O ponteiro dos minutos do meu relógio de parede bateu as sete da tarde quando o Lawrence me deu um par de ases e perdeu as calças, que se foram juntar ao monte de roupa no chão, e foi nesse momento que percebi que ele não estava a perder sem querer. De pé, apenas com uns boxers lisos a tapar a sua vergonha, o Lawrence baralhou as cartas de uma maneira profissional e suspeita. Nem sequer me espantei quando ele voltou a dar-me exactamente os mesmos Ases da jogada anterior e não olhei quando ele ficou completamente despido, no meu apartamento, no meu mundo, nas minhas mãos de jogadora idiota.

– Olha para mim. Pareço quase um prémio na prateleira. Este sou eu. – disse-me.

– Baralha. Sei que isto ainda não acabou. – respondi.

– Este sou eu. – repetia.

Ouvi o leque dos naipes a ecoar na minha sala e continuei sentada, de olhos postos no chão. Desta vez ele deu as minhas cartas viradas para baixo e pousou-as no chão, fazendo o mesmo com as suas. Continuei relutantemente a obedecer às manias daquela figura morena especada perante mim e só virei as cartas quando ele autorizou. Fizemo-lo ao mesmo tempo e a minha rifa trazia um As e um Rei. A dele um Dois e um Sete.

– Esta é a pior mão que se pode ter no poker, Rita. Com um Dois e um Sete raramente se vai a algum lado. – explicou-me.

– Também não temos para onde ir, pois não?

Sabia que estava a ser manipulada mas pela primeira vez não me importei. Já tinha percebido o jogo e o que esperar daquilo tudo e na minha cabeça desenhava-se agora uma maneira de sair por cima. No flop ele virou um Dois, um Rei e uma Dama. O pouco que aprendi sobre aquele jogo mostrava-me que eu ia ganhar mas o meu faro apurado trouxe-me a certeza que ia perder. Com razão, claro. As últimas duas cartas eram dois Setes e foi com um full house que perdi pela primeira vez naquela tarde.

O Lawrence sorria como quem acaba de fazer batota a jogar Monopólio ou outro qualquer jogo de tabuleiro. Repetiu a frase “Este sou eu, Rita.” e sentou-se pacientemente à espera de ver o que tão meticulosamente tinha planeado para mais um aborrecido dia da sua vida.

– Morava em Portugal. Enganei-me em quase todas as decisões que tomei na minha vida e perdi tudo o que alguém poderia ter de bom. Deixei lá tantas coisas que se agora as quisesse apontar como que numa lista de supermercado, não saberia fazê-lo. Foi o amor, foi a vontade, foi a dignidade, foi o orgulho, foi a esperança. Ficou tudo lá pendurado nas minhas paredes, instalado nas minhas prateleiras, congelado em tupperwares no frigorífico. Abandonei o amor da minha vida por me achar fraca de mais para amar e lutar. E não tenciono voltar ao sítio onde fui feliz para o ir buscar.

Ele bloqueou. Olhava para mim, penso eu ainda à espera de ver cair as minhas tantas peças de roupa. Ouviu, calou, não falou. Olhou-me nos olhos expectante.

– Esta sou eu. – disse-lhe.

“Luck and intuition play the cards with Spades to start. And after he’s been hooked I’ll play the one that’s on his heart”.

Rita P.

Pinguins

New York, 15 de Abril de 2010

Quando ouvi aquele “psiu”, achei que estava com alucinações. Tinha acabado de chegar a casa depois de duas horas sentada à porta de Madam Lou esperando que aquele “Volto Já” acontecesse de facto. Quando cheguei à conclusão que devia estar lá desde o dia anterior, borrifei-me, virei costas e andei 25 quarteirões a pé. Tinha nos ombros a sensação de folga e nem a real “falta injustificada com risco a despedimento por justa causa” foi suficiente para me fazer dar meia volta outra vez.

Abri a porta do prédio, fiz a minha habitual e sonhadora vistoria à caixa de correio vazia, e lá ouvi o “psiu”. Ignorei duas vezes (para mim continuava a não morar aqui ninguém, só os barulhos) mas quando começou a ficar mais vincado e insistente, muito mais audível, procurei a fonte. Atrás de uma porta impecavelmente encerada e castanha – a única do prédio – estavam uns olhinhos minúsculos. Embora olhassem na minha direcção estavam também, constantemente, a olhar em volta como quem olha para os lados antes de atravessar a rua.

– Psiu… anda cá, querida.

Não sabia quem era. Melhor, não sabia o que poderia querer de mim. Cumprimentos educados não eram o meu forte, diálogos muito menos. Mas o “psiu” tinha no olhar um peso assustado de vida e solidão e foi nessa súplica que encontrei força nas pernas para lhe corresponder.

– Olá. Precisa de alguma coisa?… – perguntei a medo.

– Entra, querida. Nem toda a gente é o bicho de sete cabeças que evitas quando preferes ir pelas escadas.

Entrei. Os móveis estavam imaculados, os tapetes sem ponta de cotão ou nódoa, as janelas pareciam espelhos e tresandava a desinfecção de hospital. Só quando vi o piano de cauda é que me lembrei da noite em que tinha ido bater àquela porta, quando a curiosidade matou o gato. Em que jurei que podia ver umas mãozitas pequenas e enrugadas a acarinhar as teclas. Mas do piano, daquele piano construtor de bandas sonoras, apesar da limpeza esmerada em todos os cantos da sala, pendiam fios e fios emaranhados de teias de aranha. Aquele pedaço melodioso da alma de Elizabeth estava abandonado no canto mais escondido, como quem deixa um bicho para morrer quando já não tem salvação.

– Peço muitas desculpas pela outra noite. Quando se vive a dois temos de nos sujeitar a tudo, sabes? – disse ela.

Não sei quanto tempo estive absorta em divagações mas quando me voltei já havia chá e biscoitos na mesa de centro. Elizabeth deixara-me à vontade para explorar o seu habitat natural. A certa altura perdemo-nos no silêncio. A ternura com que aquelas mãos seguravam o bule do chá era digna de fazer chorar as pedras da calçada. A maneira como olhava constantemente a porta encerada, essa já era assustadora.

– Quer que me vá embora? Não quero atrapalhá-la. – resolvi perguntar, quebrando o silêncio de forma tão brusca que a assustou e me fez insultar-me de todos os nomes feios que me ensinaram.

– Oh não, querida. Ele não está.

– Ele?

– O meu tudo.

– O que quer dizer com tudo? Usa tantas vezes essa palavra… – perguntei.

– Nunca estiveste apaixonada, querida?

Não respondi. Ela com certeza notou um sim quando engoli um biscoito inteiro, demasiado grande para a minha garganta. O olhar da mulher continuava pregado na porta. Parecia nem se sentar direita não fosse acontecer aquilo que, com certeza, tanto temia, e tivesse de se levantar num pulo. Mas quando olhava para mim era com mel, era com alma carregada de vida. Não procurava respostas, como os outros.

– Ele não está. Ele não está. – repetia.

– Não pode receber visitas?

– Oh, sim. Quando ele não está.

– E não tem vontade de ressuscitar o piano?

– Sim, em todos os meus sonhos sem sono. Quando ele não está.

– Mas e as teias de aranha? Parecem ter anos…

– Só as limpo quando ele não está. – sussurava. Com medo que “ele” ouvisse?

– Estes biscoitos são óptimos. Pode dar-me a receita? – como se alguma vez fosse cozinhar o que quer que fosse, quase soltei uma gargalhada. Rita, és péssima a quebrar o gelo.

– Ele não gosta – disse Elizabeth, no sorriso mais triste de que tenho memória – Mas ele não está.

Outra vez o silêncio. De repente vieram-me à cabeça os gritos roucos e bêbedos da outra noite e também eu dei por mim a olhar para a porta. Desfiz-me numa vontade louca de a embalar contra mim e salvar qualquer coisa que restasse daquele humano coração que chorava à minha frente, que parecia gritar por socorro mas que não pousava a máscara de boa esposa, mulher dedicada, mulher solitária, mulher mulher só quando ele não está.

– Gostava de a ouvir tocar outra vez. Era tão bonito. Foi talvez o único despertar que tive em meses. – disse.

Elizabeth soltou uma minúscula gargalhada. Mexeu os deditos das duas mãos no colo e trauteou uma melodia qualquer, parecia uma canção de embalar.

– Oh, não, querida. Só namoro com o piano quando ele não está.

– Mas ele não está agora. – disse eu.

– Ele está a chegar.

– Como é que sabe?

– Ele está sempre a chegar.

De facto, a sala parecia assombrada com uma presença qualquer que controlava os movimentos, as conversas, os passos no soalho. Como era possível haver tal dependência, tal devoção e amor cegos que de apaixonado não têm nada pela maneira como deixam estes olhos desamparados e perdidos? O silêncio era absoluto. Ao contrário de minha casa não se ouvia uma torneira a pingar, um electrodoméstico a marcar presença, nem o barulho da rua penetrava neste casulo.

– Dois é a conta certa. – insistiu ela.

– Nunca encarei a vida a fazer contas. – respondi.

– E porque não?

– Porque neste momento basta-me o meu um. O meu tecto, o meu quarto, o meu gato, o meu falhanço, o meu eu.

– Estás errada, querida. Repara: duas meias, duas luvas, duas cadeiras na mesa do café, dois destinos – céu ou inferno – , duas viagens – ida e volta – , dois lados – esquerdo e direito – , dois botões – on e off – , duas mesas de cabeceira mesmo quando se dorme sozinho, duas faces da moeda, dois estados – noite e dia – , dois faróis no carro, dois sexos, dois pólos – positivo ou negativo, o que está no meio que se lixe. É sempre dois.

– E o ser humano? Não é só um?

– Sim. Com duas pernas, dois braços, dois olhos, dois ouvidos. Até o nariz, que é só um, tem duas narinas.

– E isso é suposto confortar-me ou assustar-me? – perguntei.

– Lembras-te do dia em que entraste na escola e te ensinaram a desenhar o número dois? Era em forma de cisne e não era por acaso. Os cisnes, quando acasalam, é para a vida. Não procuram outro parceiro para nada e ouves o seu choro à distância quando lhes roubam a cara metade. Assim como as lagostas. Ou os pinguins. São sempre dois.

Começou a fazer mais sentido mas mudei de assunto:

– Ah, sim. Dois minutinhos à espera, dois dedos de conversa ou duas de letra, duas respostas – aceita-se um sim ou um não mas nunca um talvez ou um sei lá. E as cerejas? Podem fazer-se brincos com duas mas nunca com uma, nem com três.

– Precisamente, querida. Dois faz conta certa em qualquer lugar do mundo, deste e do eterno. E nunca se abandona o outro um
que faz o nosso dois. Nunca.

– Ele é o seu um?

– Não, ele é o dois sozinho. Só sou um quando ele não está.

– E ele está sempre… – pensei em voz alta.

Ela sorria, como as avós quando acabam de dar uma lição de vida. Pousou em mim um olhar maternal e por momentos deixou de olhar a porta, só para me perguntar:

– E onde está o teu pinguim, querida?

– Abandonei-o. Este foi o meu dois: preto ou branco, sim ou sopas, vai ou racha.

Elizabeth levantou-se e eu percebi que o ponteiro dos minutos tinha acabado de ultrapassar a barreira do “ele está quase, quase a chegar”. A vinda do dois era monitorizada ao segundo e ainda havia tabuleiros para arrumar, bule para lavar e guardar junto do serviço de chá do casamento, migalhas para aspirar, “bem-vindo a casa, querido” para preparar ao espelho, mesmo que depois ele batesse com a porta e eu, no sossego dos meus dois andares acima, voltasse a ouvir os berros e a perturbação do sossego de Elizabeth com um qualquer jogo de futebol nas alturas.

Levantei-me também, percebendo a mensagem. Por uma fracção de segundo quis levá-la comigo e escondê-la mas sabia que não valia a pena. Um cisne, uma lagosta, um pinguim. É para a vida, não é?

“Onde andas princesa….?”

– Devíamos fazer isto mais vezes. – disse quando ela me agarrou a mão, apenas com o umbral a separar a possibilidade de um abraço envergonhado.

– Lamento querida, só quando ele não está. E ele está sempre.

Pior do que sentir que estava a guardar um segredo maior que a Estátua da Liberdade, foi saber que aquele tinha sido o segundo adeus definitivo da minha vida em tão pouco tempo.

Rita P.

Prólogo com brigadeiros

Portugal, há muito tempo atrás em 2000 e não me lembro.

Da cozinha no andar de baixo, a mãe praguejava mais uma vez pelo mesmo motivo de há dois meses atrás: um tupperware médio, com uma tampa azul, deixado ao abandono no balcão da cozinha e ocupando espaço precioso para pousar os sacos das compras.

– Riiiiiiiiiiiiiiiiiitaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. QUANDO É QUE ME TIRAS DAQUI ESTA PORCARIA?

Fechada a sete chaves, a Rita ignorava. Os gritos, o tupperware, a falta de espaço na cozinha, o espaço a mais na mente e a menos no coração moribundo.

No fundo aquela mãe sabia porquê. No dia em que a Rita chegou a casa com o tupperware, trazia colada a ela um enorme sorriso besuntado de chocolate. Fazia anos, não chovia, não havia medos, estava segura como um alpinista preso ao arnês.

– Que tupperware é esse? – perguntou a mãe.

– Foi um presente. – disse a Rita entre sorrisos e lambidelas nos lábios ainda doces de chocolate e amor.

– O que tinha? Bolo?

– Brigadeiros.

– E eram bons? – quis saber a mãe, gulosa.

– Eram os melhores, mãe. Sabiam a tudo o que há de doce no mundo e trouxeram-me tudo o que há de bom para digerir e voltar a comer, comer, comer.

– Não vai ficar aí o tupperware, pois não?

– Não mãe, não te preocupes. Amanhã já o devolvo.- sorria como se a boca tivesse o triplo do tamanho.

Ficou ali. Exactamente no mesmo sítio, a estorvar as malgas da comida do gato e a fruteira com tangerinas. Os dias foram passando e a mãe foi chamando à atenção todos os dias, até que começou a reparar na maneira fria como a Rita abandonara e ignorava agora o tupperware de tampa azul. Não respondia mais nada a não ser um “qualquer dia” e um entredentes “espero eu”.

A própria mãe começou a ignorar o tupperware sem fazer perguntas. Ficou ali pousado como se fosse a última parte dos brigadeiros ainda a frequentar aquela casa com vergonha mas sempre com alegria. A mãe habituou-se ao tupperware e tentou esquecer o que o tinha trazido lá a casa. A Rita também.

No dia em que a filha saiu de casa com o tupperware no braço, foi quando aquela mãe encheu o coração de esperança e teve a certeza que era agora que a filha ia voltar a ficar como era.

Enganou-se. A partir desse dia, nunca mais ninguém voltou a ver a Rita.